Governo do Distrito Federal
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19/11/21 às 20h46 - Atualizado em 22/11/21 às 13h06

Consciência negra se aprende na escola

 Aulas, debates, histórias e ações plantam esperança e educação antirracista no Distrito Federal 

Thaís Rohrer | Ascom/SEEDF

 

Professora Bruna e a estudante Ana Clara em ensaio fotográfico. Foto: André Amendoeira | Ascom/SEEDF

 

Princesas e príncipes lindos e resplandecentes passeavam pelos corredores da Escola Classe 4 do Paranoá neste mês de novembro. Eles saíram diretamente de histórias como A Bela e a Fera, Moana, Bela Adormecida e tantos outros contos de fadas. Mas desta vez, os personagens não tinham a representação branca mostrada originalmente no cinema. Os “atores” que os davam vida eram todos negros. Mais, eram crianças negras, alunos da escola.

 

As unidades da rede pública usam dessa criatividade para desconstruir o imaginário infantil, em que heróis e heroínas são todos brancos. Assim, mostram a importância da representatividade, da diversidade, da luta contra a discriminação racial.

 

Especialmente no mês de novembro, em que é marcado o Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, o assunto é destacado por meio de diversas atividades nas escolas da rede pública.

 

O Projeto Olhares é uma dessas ações. Ele teve início a partir da observação do corpo pedagógico da Escola Classe 4 do Paranoá. Eles viram que alguns alunos negros se sentiam inferiores e relatavam não gostar de sua aparência, além de sentirem na pele o preconceito por parte de colegas, chegando inclusive a relatar vontade de cometer suicídio.

 

A iniciativa surgiu para ser um contraponto a essa situação por meio de um ensaio fotográfico que fortaleça a autoestima das crianças, destacando as belezas e singularidades de cada raça.

 

O projeto está na terceira edição em 2021. Neste ano, foram 200 crianças fotografadas para uma releitura de clássicos da literatura europeia e de filmes infantis famosos.

 

A gente viu resultado positivo até na aprendizagem das crianças após o projeto, porque se sentiram mais incluídas, ficaram mais participativas nas aulas e os colegas também acolheram super bem a ideia. O ensaio é uma ação entre as várias que vamos fazendo ao longo do ano, trabalhando ações como a inteligência emocional e mostrando a importância das diferentes raças”, destaca a Denise dos Santos, vice-diretora da EC 4 do Paranoá.

 

Maria Helena Rodrigues, 6 anos, estava vestida de princesa Moana. “Eu amei a maquiagem, as fotos e todo esse dia. Me sinto linda e corajosa como a princesa. O que gosto na Moana é de ser pretinha como ela”, conta.

 

Maria Helena vestida da princesa guerreira Moana: “O que gosto é de ser pretinha como ela”. Foto: André Amendoeira | Ascom/SEEDF

 

Bruna Cristina Bispo é professora da Escola Classe 4 e também foi uma das idealizadoras do projeto Olhares junto com a equipe. “Eu mesma passei por um processo de mudança que começou a partir da situação de uma aluna que não sentia bem. Aquilo mexeu muito comigo! Eu vejo hoje como professora que essas crianças precisam se sentir lindas e representadas. Na minha época de estudante, nós não tínhamos essas referências negras e isso é importante”, conta. A docente fez questão de participar do ensaio com uma de suas alunas, Ana Clara, de 6 anos, que estava vestida de princesa Bela. Ela conta que continuou se sentindo linda também depois de tirar a roupa da personagem.

 

Meu sentimento é de alegria. Estou realizada em ser fotografada e me ver de princesa” afirma outra estudante, Natasha Carvalho, 8 anos.

 

As conversas nos bastidores das fotos demostram que a escola tem conseguido fortalecer a autoestima das crianças e disseminar a importância do combate ao racismo entre os estudantes.

 

Esta já é a segunda vez que o fotógrafo Mário Miranda participa do projeto Olhares. “É importante ver essa evolução dos estudantes. Futuramente eles podem ver essas fotos e enxergar a sua identidade refletida de alguma forma. Fazer isso no mês de novembro é importante para lembrar que o Dia da Consciência Negra é uma data que não pode ser esquecida”, destaca o fotógrafo, que desenvolve o trabalho voluntariamente.

 

Leitura para conscientização

 

Uma manhã descontraída de autógrafos e bate-papo com a escritora do livro Preta de Greve e as Sete Reivindicações encantou as crianças da Escola Classe 3 do Gama, no dia 16 de novembro. A autora da obra, que também é professora, Zenilda Vilarins Cardozo, fez questão de ir ao local para conversar com os estudantes no mês da Consciência Negra.

 

O livro conta a história de Pérola Preta, a menina negra que se sente linda, feliz e representada nos ambientes cotidianos de sua convivência, até que vai pra escola e começa a enfrentar diversos desafios. Diante desse novo contexto, ela tem que tomar atitudes contra o preconceito. A professora escolheu a literatura para mostrar as possibilidades de combater o racismo de forma lúdica.

 

Zenilda Vilarins Cardozo conversa com crianças da EC 3 do Gama. Foto: André Amendoeira | Ascom/SEEDF

 

As crianças são verdadeiras aliadas, demonstram empatia com causas como essa. Apaixonaram-se pela Preta, tornaram-se suas amigas e firmaram compromisso com as 7 Reivindicações. Fizeram inclusive os caminhos da Preta buscando descobrir se a história poderia ser real, procurando a representatividade nos espaços que frequentavam e identificando situações racistas no cotidiano. Então o projeto ultrapassou os muros da escola, o que é muito gratificante”, frisa Zenilda Vilarins Cardozo.

 

A ideia surgiu quando a docente atuava na Escola Classe 22 do Gama e desenvolvia ações voltadas para a temática de estudo, discussões e ações sobre a violência contra a mulher.

 

Valorização cultura afro-brasileira

 

A Secretaria de Educação do DF já segue o ensino da história e das culturas africanas e afro-brasileiras como parte do currículo em movimento, ampliando o tema para discussão da cidadania, direitos humanos e diversidade ao longo de todo o ano. No mês de novembro, as escolas intensificam as ações sobre o tema.

 

O Centro Educacional Dona América Guimarães de Planaltina preparou ações de espaços de debates, reflexões e práticas de valorização da herança cultural afro-brasileira. A unidade desenvolveu com os estudantes ações como confecção de telas, que reproduzem padrões geométricos e coloridos da característica da cultura africana; debates e rodas de conversas sobre racismo e as formas de combatê-lo; roda de capoeira; Banda de AfroReggae; música e dança.

 

A educação antirracista também é tema de ações para estudantes do ensino médio organizadas pela Coordenação Regional de Taguatinga por meio do projeto Cidade Cor.

 

O lançamento da ação ocorreu em outubro, com show da cantora Ellen Oléria e bate-papo com os jovens. Seguiu em novembro, com apresentações musicais e debates sobre o tema.

 

A programação do projeto engloba 34 escolas de Taguatinga que adotaram a proposta. Entre as principais ações do Cidade Cor estão o seminário de educação antirracista; a aquisição de livros com a temática para as bibliotecas; a entrega de um caderno de apoio para práticas pedagógicas; a produção de painéis com personalidades negras; e o plantio de baobás e rodas de conversa; além de concurso de seleção das práticas pedagógicas desenvolvidas pelas unidades escolares que resultará na produção de um e-book.

 

Dia 20 de novembro

 

A data foi instituída como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra pela Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011. A data faz referência à morte de Zumbi, em 1695. Guerreiro, líder do Quilombo dos Palmares – situado entre os estados de Alagoas e Pernambuco –, Zumbi dos Palmares foi combatente da escravidão na época do Brasil colônia.

 

Dia da Consciência Negra