Governo do Distrito Federal
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1/03/19 às 9h48 - Atualizado em 1/03/19 às 15h12

47% dos calouros que ingressarão na UnB estudaram em escolas públicas

Esse recorde da UnB vem sete anos após a sanção da Lei Federal de Cotas (nº 12.711), que foi instituída no país em 29 de agosto de 2012.

 

Do Correio Braziliense

 

Na foto, estudante com secretário de Educação, mãe e diretor da escola. (Foto: Luis Tavares, Ascom/SEEDF).

O primeiro semestre deste ano revela um novo perfil de estudantes na Universidade de Brasília (UnB). Dos quase 4 mil alunos convocados para ingressar em cursos de graduação da universidade, 47% estudaram na rede pública de ensino. O número é um recorde. Paulo Damasceno Nepomuceno, 17 anos, terminou o ensino médio ano passado e é um dos que compõem a estatística histórica. Ele se transformou em orgulho da família depois de ser aprovado com a nota do pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em engenharia de rede e comunicação na UnB.

 

Filho de mestre de obras e mãe diarista, o adolescente é o primeiro da família materna a frequentar uma universidade pública. “Era o sonho da minha avó e da bisa. Minha mãe tem três irmãos, mas nenhum pôde fazer graduação. Estou sem acreditar, vivendo um sonho. Valeu a pena cada esforço, cada hora dedicada aos estudos”, disse, emocionado.

 

Paulo mora em Santa Maria e cursou o ensino médio no Centro de Ensino Médio Integrado (Cemi), no Gama. O estudante afirma que um dos maiores estímulos dele durante todo esse processo era o incentivo e suporte que recebia dos professores. “A escola que estudei, sem dúvida, foi o diferencial. Os alunos de lá têm estrutura para crescer, ir além. Se todas fossem iguais, os números (de alunos da rede pública na UnB) seriam ainda mais expressivos.” No ano passado, o percentual de calouros vindos do ensino público foi de 39%, o mesmo de 2017. Em 2016, 40% dos que entraram advinham de escola pública. Em 2015, o índice era de apenas 28%.

 

A rotina de Paulo durante todo o ano de 2018 se resumiu aos estudos. De manhã, era no colégio; à tarde, das 14h30 às 18h30, estudando em casa. A mãe, Eva Nepomuceno, se emociona ao saber que o filho vai seguir no ensino superior. Para ela, as pessoas que vêm da escola pública sofrem preconceito. “Tem gente que acha que não é possível passar, quando não se tem muito recurso. Muita gente disse que isso não era possível. Mas sempre nos esforçamos muito para que hoje esse sonho tenha se tornado realidade”, conta Eva, nascida no Piauí.

Conquista

O professor Wilson Roberto Theodoro Filho, diretor técnico de graduação da UnB, explica que o restante do percentual de calouros deste ano (53%) não corresponde unicamente a alunos que estudam em escolas particulares. “Não tem como negar que estamos cada vez mais plurais, o que representa uma conquista”, comemora.

 

André Vinícius Alves Barbosa, 18, passou por meio do Programa de Avaliação Seriada (PAS) para geografia na UnB. “Essa conquista é fruto de dedicação, mas muito mais que isso, é resultado da motivação que recebi da família e dos professores. É preciso acreditar que somos tão capazes quanto qualquer outro aluno, apesar das dificuldades”, diz ele, que mora no Gama e também aluno do Cemi.

 

O sonho de infância de Raísa Dias Alves, 17, sempre foi cursar arquitetura. Ela estudou na rede pública desde a pré-escola e cursou o ensino médio no Centro Ensino Médio 3 de Taguatinga. Hoje, a futura arquiteta comemora feliz a aprovação pelo PAS na UnB. “Ter passado numa federal é incrível. Nada paga a satisfação de dar esse orgulho para os meus pais. A gente tem é que ocupar esses espaços mesmo, merecemos muito uma vaga”, pondera a moradora de Samambaia Sul.

 

Se depender de Paula Cristina Santos, 18 anos, a área de odontologia ganhará em breve mais uma profissional exemplar. Moradora de Ceilândia desde os 4 anos, está contando os minutos para iniciar o curso de graduação na UnB. “Ter passado pelo Enem em um curso tão concorrido é a realização de um desejo que nem me permitia ter. Felicidade e orgulho definem como meu coração está agora”, conta a ex-estudante do Centro de Ensino Médio 414 de Samambaia.

Concorrência

Esse recorde da UnB vem sete anos após a sanção da Lei Federal de Cotas (nº 12.711), que foi instituída no país em 29 de agosto de 2012. A lei determinou que, em um período de quatro anos (agosto de 2016), metade das matrículas nas universidades e institutos federais deveriam atender a critérios de cotas raciais e sociais. Os demais 50% das vagas permaneceriam para ampla concorrência.

 

O número de alunos de escolas públicas que ingressaram nas universidades federais saltou de 28.835 para 78.350, segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que possui um levantamento detalhado entre os anos de 2012 e 2015. Outro dado que também apresentou aumento é o relacionado à reserva de vagas baseada em critérios étnicos, que levam em conta a declaração de raça: passou de 14.262 para 46.809. Para pessoas com deficiência, houve crescimento de 182 para 585.

 

Neste mesmo período, o número de estudantes que se declararou pretos ou pardos, e entrou em universidades públicas, passou de 933.685 para 2.172.634. Avanço também entre os estudantes que se declararam brancos — e que seguem sendo maioria nas universidades públicas. O número saltou de 1.642.559 para 2.903.256. Aumento, ainda, no ingresso de estudantes que se declararam amarelos: passou de 62.029 para 116.036. Por fim, em relação às pessoas que se declararam indígenas, o quantitativo avançou de 10.282 para 32.147.

Inclusão

Hoje, a UnB possui 38.032 estudantes de graduação ativos. Desse total, 15.272 ingressaram por meio de alguma das políticas de cota. Além da reserva de vagas para candidatos negros (5%) e oriundos de escolas públicas (50%), a instituição destina vagas para pessoas com deficiência (PCD), nos termos da lei federal sobre o assunto, além de realizar processo seletivo específico para o curso de Libras.

 

Uma outra forma de ingresso é por meio do vestibular indígena. A universidade destina 1% do total de vagas anuais para candidatos indígenas, conforme acordo de cooperação técnica estabelecido com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Essa reserva, entretanto, não entra na conta de outros processos seletivos da instituição, ou seja, são criadas vagas.

 

Não há um levantamento em relação ao quantitativo total de estudantes com renda per capita familiar de até 1,5 salário mínimo. As políticas institucionais se pautam a partir de números da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) acerca da composição do perfil discente em nível nacional.

 

Segundo a entidade, mais de 60% dos estudantes de universidades federais têm renda per capita familiar de até 1,5 salário mínimo. Além disso, é considerada a alta demanda por alguma das modalidades de apoio à permanência do estudante, como auxílio-alimentação, moradia, socioeconômico, entre outros.

Colégio modelo

Nesta escola, dos 152 alunos que terminaram o ensino médio ano passado, quase metade também conseguiu entrar na universidade, pelo PAS ou Sisu. O diretor da instituição, Carlos Lafaiete Formiga Menezes, explica que o objetivo do estabelecimento de ensino é promover experiências além da sala de aula. “Temos projetos de integração e de pesquisa, porque acreditamos que a escola deve capacitar os alunos o máximo possível. A educação salva.”

Três perguntas para MÁRCIA ABRAHÃO, reitora da UnB

Neste primeiro semestre de 2019, o número de estudantes de escolas públicas selecionados para a UnB bateu recorde. Acredita que isso tem contribuído para uma mudança importante?
Sem dúvida. As ações afirmativas introduzidas na UnB — inicialmente para negros e indígenas e, mais tarde, para estudantes oriundos de escolas públicas e pessoas com deficiência — deixaram a instituição muito mais diversa do que há alguns anos. Essa “nova” comunidade discente concretiza um dos objetivos constitucionais da universidade, o de tornar o ensino superior mais democrático e inclusivo. Abrindo as portas da instituição na graduação, temos, consequentemente, pesquisadores conectados a realidades diversas — o que deixa a nossa produção acadêmica mais plural e ajuda a aprimorar a busca por respostas aos desafios nacionais.

 

A senhora foi a decana responsável pela implantação do Reuni na UnB. Como foi acompanhar o processo de expansão e testemunhar, agora como reitora, o acesso mais amplo de estudantes de escolas públicas?
É motivo de orgulho perceber que a expansão cumpriu com o seu objetivo, muito embora ainda sejam necessários recursos para consolidá-la e manter investimentos constantes na instituição. Na época do Reuni, muitos críticos nos diziam que iríamos acabar com a universidade e diminuir a qualidade do ensino. O tempo mostrou que isso não ocorreu, pelo contrário, seguimos avançando em rankings acadêmicos nacionais e internacionais. Foi muito importante no Reuni criar os campi de Gama e Ceilândia, em 2008, e ampliar as vagas do campus de Planaltina. Uma decisão que também se mostrou acertada foi priorizar o aumento de vagas no noturno. Essas decisões foram fundamentais para ampliar o acesso de estudantes oriundos de escolas públicas e de trabalhadores à universidade.

 

Quais são os desafios que esse cenário impõe à administração da universidade?
O maior desafio é garantir que esses jovens concluam a graduação com sucesso, dentro do tempo previsto. Nesse sentido, é essencial o fortalecimento das políticas de assistência estudantil, que auxiliam os estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. A título de exemplo, atualmente a UnB oferece subsídio integral em todas as refeições servidas pelo Restaurante Universitário a 7 mil estudantes. É importante que tais políticas continuem sendo priorizadas pelo governo, para que mais pessoas possam sair da UnB bem qualificadas e preparadas para atuar no mercado ou seguir a carreira acadêmica. Além disso, precisamos, internamente, melhorar o acompanhamento desses jovens e agir preventivamente, diminuindo a evasão e a retenção.